Os Dois Xavier da Silva

Oney Barbosa Borba

    A rua nomeada de Dr. Jorge Xavier da Silva é histórica por excelência. Foi um dos pilares do Pouso do Iapó. Jamais foi rua traçada segundo à técnica, na sua origem tricentenária. Seu início foi a trilha feita pelas patas de mulas que passavam desde a Água Suja, onde se dessedentavam, até o início da travessia pelo vau do Iapó. Os ranchos que se ergueram ao lado do caminho deram-lhe a feição de rua, a Rua das Tropas. Não há notícia da existência de placas para identificá-la, porém, desde dantes, quando a Póvoa se enfeitava, seus moradores, tropeiros em sossego nos ranchos de porta e janelas com trancas, começaram a indicar seu paradeiro como na Rua das Tropas, para diferençar de outros desvios que se faziam para o rio. 

    Muitos anos se passaram do pouso para a freguesia e o caminho principal para o vau era pela Rua das Tropas, até que a freguesia foi transformada em vila. E quando a Rua das Tropas já atingia o máximo desenvolvimento comercial, os camaristas, como eram designados os atuais vereadores, tendo em consideração que o comércio a retalho se concentrava justamente por onde corria o maior movimento de tropeiros, resolveram batizá-la como Rua do Comércio, quando então, confeccionaram e afixaram placas em certas esquinas, com a nova designação, que durou até o quase o fim do século dezenove, precisamente após a morte de Jorge Xavier da Silva. 

    No dia 10 de julho de 1895, em sessão extraordinária da Câmara Municipal, compareceu o prefeito Olegário Rodrigues de Macedo e informou à câmara que havia falecido o Dr. Jorge Xavier da Silva, tecendo sobre o fato copiosa adjetivação dos méritos profissionais do falecido que em vida portava-se generosamente com o povo que o tinha como verdadeiro pai. Sua comunicação emocionou não somente os camaristas como também a numerosa assistência que ali comparecera. Terminados os aplausos às palavras do prefeito Olegário, o camarista Eduardo Torres Pereira indicou e foi aprovada pela Câmara a proposta: “Paço da Câmara Municipal, aos dez dias do mês de julho de mil oitocentos e noventa e cinco: proponho que a rua denominada do Comércio, nesta cidade, em homenagem ao ilustre morto Doutor Jorge Xavier da Silva tomasse o seu nome para exemplo dos coevos e vindouros, autorizando desde já a câmara, seu ilustre prefeito que denominasse a referida rua com o nome do distinto médico falecido, ficando por isso denominada a rua do comércio com o título de rua Dr. Jorge Xavier da Silva, ordenando a mesma Câmara que o cidadão prefeito municipal ordene em ato contínuo a mudança dos letreiros da mesma rua pelo atual”. O prefeito consultou a câmara e esta foi unânime da aprovação da proposta do camarista Torres, mandando que imediatamente fosse posta em execução. Secretariou a sessão o camarista Amantino Rodrigues de Andrade que redigiu a ata, a qual, no início constou a presença dos camaristas Eduardo Torres Pereira, Guilherme Gaertner, Bernardo Manoel da Silva, Sérgio Villela. 

    Jorge era irmão de Francisco, o bacharel que foi advogado, promotor, juiz, vereador, prefeito, deputado, senador, presidente do estado, ambos nascidos em Castro, criados na fazenda Caxambu, organizada pelo avô o português Francisco Xavier da Silva. Por tradição oral, sabe-se que Jorge cursava medicina no último ano quando resolveu visitar sua terra, Castro e não mais voltou para concluir o curso. Não havendo profissional então, na cidade, passou ele a atender os necessitados de recursos da medicina. Procedeu com perícia e carinho de tal forma que grandeou enorme simpatia dos castrenses. Como era dado ao vício do jogo e Castro era um afamado centro de jogatina, Jorge foi ficando, clinicando, operando, jogando. Quando era solicitado profissionalmente, largava tudo imediatamente e saia correndo para atender seus pacientes. Essa presteza em assistência deu-lhe sólido prestígio. Seu sepultamento levou ao cemitério municipal multidão até então nunca ocorrida em Castro. O povo da época reconheceu o valor profissional e o sentido humano do convívio com Jorge Xavier da Silva. Pelas palavras empregadas pelo prefeito Olegário, comunicar à câmara a morte de Jorge, nota-se que o falecido impressionava os castrenses pelos conhecimentos científicos que possuía e, naturalmente, nas conversas do dia a dia, comunicava-os aos circunstantes. Os meios acadêmicos de então, mesmo no Brasil, estavam em contato permanente com os meios cultos europeus, principalmente. Esse foi sempre um dos lados positivos da política de D. Pedro II; aproximação dos intelectuais brasileiros com os ambientes culturais. 

    Ao contrário do Dr. Francisco que iniciara a vida pública como político desde sua formatura como bacharel, o Dr. Jorge, sem concluir o curso de medicina, jamais exerceu cargo político, nem função pública. Aquele, quando morreu no Rio de Janeiro, era senador da República e está sepultado em Castro; este, como o irmão, morreu solteiro, curando e espalhando o saber. O Dr. Francisco é considerado como um dos melhores administradores que o Paraná já teve: Saneava as finanças do estado arruinadas pelos três antecessores que tivera quando voltava pela terceira vez à governança do Paraná. Fiscalizava as obras da capital pessoalmente, montando cavalo de seu andar, tendo como seus colaboradores gente capaz, distante e alheio a parentescos, amizades e partidarismo político. O Dr. Jorge ligou-se ao povo de seu chão, servindo-o diretamente em seus achaques físicos e em suas carências culturais de que muito padeciam os iapoenses. Estes dois irmãos Xavier da Silva, viveram e trabalharam sem ambição pecuniária, cada um a seu modo, pelo bem estar de seu povo. 

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