Emilio Rebonato
Emilio Rebonato, 78 anos, casado com Mirafta (Zulmira), pai de 12 filhos, foi barbeiro e instrumentista, suas marcas registradas. Tocou em várias bandas, foi seresteiro e participou de orquestras que animavam os cinemas mudos. Lidar com cavalos era outra de suas paixões. Entre fatos de seus amigos e os instrumentos que guarda com cuidado, Rebonato consegue fazer surgir um mundo de fatos que nos ajudam a conhecer um pouco mais do passado.
Como foi o início de sua carreira de músico?
Tocava tarolo, um tamborzinho conhecido por rufo, no Terpe Castrense do maestro Benedito Pereira. Durante quase 60 anos, fui integrante da Banda Lyra Castrense, desfeita há poucos anos atrás. Por essa participação, ganhei até uma placa de agradecimento e homenagem da atual Banda Bento Mussorunge e do prefeito anterior.
Aprendeu a tocar sozinho?
Eu tinha bom ouvido, era medonho para gostar de música. Meu pai, que também era músico de Banda da Polícia em Curitiba, não queria.
De que maneira as bandas animavam a vida em Castro?
Nós fazíamos retreta no coreto da praça. Castro teve três bandas de música, o que muita gente desconhece. Eram a Banda do Regimento primeiro do 29º Regimento de Cavalaria, depois do V- a Lyra Castrense, que substituiu o Terpe Castrense; a Banda Operária, que teve duas fases, eu toquei na última, nos anos 20.
Tinha público para todas elas?
Tinha sim, mesmo as três existindo na mesma época. O público gostava.
Que tipo de música vocês tocavam na década de 20?
Valsa, marcha, dobrado, canções do exército. As bandas eram boas de fato.
O que elas tinham de especial?
Os músicos gostavam e tocavam por esporte. Eu, por exemplo, aprendi muito porque gostava, era fanático por música. Até hoje ainda sopro um pouco o pistão, o bombardino, o barítono.
Por que a Banda terminou?
Foi morrendo o pessoal, só três deles ainda vivem. Depois nós formamos novamente, com o falecido Miguel Dias de Macedo (Bacalhau).
Os músicos sabiam ler música ou tocavam de ouvido?
Não! Era por música mesmo. Eu aprendi a ler música com um homem que esteve aqui em Castro, que tocava pistão e tinha só um braço. Ele era um grande músico e trabalhava como guarda-livro. Veio lá do Rio Grande.
Qual conselho daria para quem está começando a estudar música?
Tem que se dedicar, gostar. Se não gostar, não aprende.
O que é a música para o Senhor?
É uma arte e também matemática, porque tem a divisão, cada nota tem um tempo certo, um valor. Tem camarada que quer aprender e a cabeça não ajuda. Tem que ter gosto.
Enquanto toca, o que imagina?
É uma coisa bonita. Fui muito de serenata, mas serenata direita, com violino, trombone, pistão, sem esculhambação. Toquei em orquestra de cinema, no tempo em que o cinema era mudo e a orquestra fazia o fundo musical. Era o antigo Cine Teatro Odeon que, para poder passar suas fitas, jogavam água com balde no pano da parede que servia de tela.
Como eram os encontros sociais nesses tempos?
Nos meus tempos de piázão, a Banda do Regimento ia tocar em bailes em lugares onde não tinha nem água instalada, como numa casa antiga, onde havia escrito na parede "Seca do Ceará", pela falta de água. Só havia cerveja, barata naquela época, por mil réis a garrafa. Só que não havia dinheiro. Eu sou do tempo ruim. Digo ruim, porque mesmo o pessoal atualmente vive dizendo que tudo é caro, nós hoje rola dinheiro. Antes não havia tanto. Sou aposentado, ganho três salários, tenho meu rancho velho aqui e estou achando a vida boa.
Que acha da música hoje em dia, da maneira como o pessoal se diverte por meio dela?
Faz muitos anos que não vou a bailes. Nunca fui mesmo de ir, ia para tocar. Estas músicas de agora, não sei, são meio esquisitas, uns cantores de viola, umas coisas que a gente não entende nada, é só tchan, tchan, tchan, tchan, tchan. Eu toquei muito em casamentos, nos tempos da Lyra Castrense. Nas recepções serviam champanhe francesa. Eu nunca fui de beber, mas aquela era beleza.
O que há para substituir as grandes bandas de antigamente?
Pode escrever no jornal: aqui teve música no tempo em que Castro era pequena. Hoje não existe subvenção oficial para os músicos tocarem. Tem a Banda Mussorunga, atualmente. Tinha uma orquestra dos irmãos Meiras, muito boa, mas hoje não existe mais. Eu não conheço muito, pois quase não saio, a gente com essa idade. Mas no lugar das grandes bandas, pelo menos aqui em Castro, acho que não existe.
E como foi que sua esposa se apaixonou pelo senhor? A música ajudou?
Foi por causa da música. Eu nunca fui rapaz de namorar, ajudava minha mãe e minhas irmãs; tudo o que eu ganhava entregava a minha mãe, 250 mil réis por mês. Daí apareceu este toque lá em Santa Quitéria, longe. Não tinha automóvel como hoje, naquele tempo, havia os pés-de-bode. Mas para ir até lá, só a cavalo. Então eu disse que não ia, pois trabalhava já era barbeiro, sempre fui barbeiro e nunca larguei minha profissão. Não podia deixar de ganhar uns trocos. Quando me disseram que iam pagar e que me levavam, então aceitei. Fui tocando bumbo e prato, substituindo um amigo que não estava aqui. Eu era "pau para toda obra" e qualquer instrumento que pegasse, eu arranhava.
Chegando lá, vi aquela moça e perguntei para um amigo quem ela era. Ele disse: minha irmã. E eu comecei a chamá-lo de cunhadinho. Ela nem sabia. Não é porque ela é minha patroa, mas a Zulmira era muito bonita quando moça. Depois, teve outra festa no Socavão, mas não dançamos. Quando ela veio passar uns tempos na cidade, eu vinha conversar com ela, de tardezinha, na janela eu do lado de fora e ela, dentro. Até que chegou a hora do casamento, quando meu compadre Napoleão fez o pedido por carta.
Então não foi o senhor que a pediu em casamento?
Não, foi meu compadre. E quem fez meu casamento foi o Nenê Flores. Casei depois de 18 meses de noivado, mas nesse tempo todo nos víamos muito pouco. Nunca beijei minha noiva. Hoje, se não fizer assim, tá sujo com a namorada. Eu era meio mocorongo, não tive grande escola, o mundo é que me ensinou alguma coisinha. Mas nunca fui bagunceiro, mau elemento. Meus amigos é que me caçoaram, na hora do casamento, pois em vez de beijar a noiva no final, peguei o braço dela e saí ligeiro, num passo meio largo. A turma da banda não esqueceu de mim: quando vi, romperam um dobradão que me comoveu, lá na casa do Nena. Eu não quero me gabar - não sou melhor que os outros - mas como pai de meus doze filhos, com minha família, meus netos e minha vida, eu sou feliz.
Quais dos seus filhos são músicos?
Quatro deles tocaram: o Osvaldo e o Rubens, açougueiros, o Hélio e o Sebastião, o mais velho. Uma vez teve um concurso de bandas no Teatro Guaíra, em Curitiba, e nós tiramos o 2º lugar. Dos netinhos que moram comigo, tem um pequeno que vem, pede para tocar, põe o instrumento na boca. Mas não sabe, assopra e faz tu, tu, tu, tu.
E o senhor, quando garoto, o que lembra para contar?
Comecei a aprender música garoto. Durante a 1ª Guerra Mundial, nós formamos um batalhão aqui em Castro. E tinha um outro time, de alemães, aqui para baixo. Tudo piázada, com cabo de vassoura e pedaço de pau. Eu tocava corneta e, como conhecia os toques do Quartel de ouvido, um dia toquei para reunir a gurizada de tardezinha. Começou a descer soldado a cavalo que não paravam mais. Eu toquei forte e eles ouviram no quartel. A Guerra tinha arrebentado naqueles dias. Aí, eu sei que foi uma confusão danada. Mandaram me chamar e eu disse que nem sabia o que tinha tocado. Eles me disseram: "olha menino, brinque mas não faça mais assim, que você deu um susto em nós".
Outra coisa é quando eu ainda morava em Curitiba. Fugia de casa para pegar jornais na redação e vendê-los. Com o dinheiro, comprava umas cocadinhas e empadas na rua XV. Mas era empada de camarão, de verdade, nunca mais encontrei igual. Até que um dia meu pai cismou comigo e não deixou mais. Para eu não sair escondido, amarrou uma correntinha com cadeado no meu pé e prendia na figueira de casa. Minha mãe levava almoço, cafezinho. De tarde, quando não tinha mais jornal, me soltavam. Às vezes, minha mãe falava para o meu pai para acabar com aquilo e ele dizia que "era para não criar um vagabundo pelas ruas".
CAMBUI - 1 DEZEMBRO 1983 - ANO 1 - N 13
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