Cultura de Sobrevivência e Versatilidade de Ofícios

1. Cultura de Sobrevivência e Versatilidade de Ofícios

 

A cultura dos primeiros povoadores não era "exígua", mas era exigente em esforços de adaptação para a sobrevivência. Diante das dificuldades e da insuficiência produtiva das atividades agrícolas na região de pastoreio, os povoadores foram forçados a desenvolver uma cultura de multitarefas para garantir sua subsistência.

Para sobreviver, o povoador precisava exercer diversas funções simultaneamente:

  • Produtor: Ele tinha que ser capaz de produzir como **médico, agricultor, pecuarista, engenexígua", mas era exigente em esforços de adaptação para a sobrevivência. Diante das dificuldades e da insuficiência produtiva das atividades agrícolas na região de pastoreio, os povoadores foram forçados a desenvolver uma cultura de multitarefas para garantir sua subsistência.

Para sobreviver, o povoador precisava exercer diversas funções simultaneamente:

  • Produtor: Ele tinha que ser capaz de produzir como médico, agricultor, pecuarista, engenheiro e mestre, aprendendo e executando tudo ao mesmo tempo, "fazendo com o cérebro e com as mãos".
  • Artesão e Criador: Ele era o sesmeiro e o povoador que ensinava a carrear, preparar o couro, erva mate, farinhas, construir casas, fabricar móveis e instrumentos de trabalho, tecidos.

O ambiente, composto majoritariamente por gramíneas, capões e pinheiros, era adequado principalmente à criação de gado, e o povoador, que muitas vezes vinha de zonas litorâneas dedicadas a outros ofícios, teve que adaptar-se ao novo meio e a um novo sistema de atividade econômica baseado na pecuária e tropeirismo.

2. Bases Morais e Éticas

Apesar das adversidades e da constante luta contra a natureza com "poucos recursos", os povoadores manifestaram qualidades morais que deixaram um legado:

  • Resistência e Caráter: As dificuldades impostas pela ordem ecológica e pelas "terríveis leis portuguesas" exigiam uma imensa capacidade de resistência e fortaleza de caráter para resistir e sobreviver.
  • Três Bases Fundamentais: As fontes elogiam o legado dos povoadores, citando que eles lutaram e viveram, deixando uma situação territorial maravilhosa, com exemplos de tolerância e de trabalho, consideradas "três bases fundamentais do progresso paranaense".

3. Cultura e Contraste Social (Tenente Fogaça)

A cultura dos povoadores é ilustrada em contraste com o regime escravista e os costumes de vizinhos retrógrados, destacando valores de humanidade e liberalidade em certos indivíduos.

O caso do Tenente Fogaça é um exemplo vívido das tensões culturais da época.

  • Liberalidade e Humanismo: O Tenente Fogaça é descrito como um "homem reconhecido e de bem", trabalhador e celibatário. Seu tratamento liberal para com os escravos era "traduzido no tratamento não muito ortodoxo para com os negros, o que, naturalmente, causava espécie aos demais escravistas".
  • Contraste Social: Os escravos de Fogaça eram descritos como pessoas que "viviam como se fossem homens livres", vestindo-se bem, montando bons animais e gastando dinheiro em alfaias, o que era visto como uma "verdadeira provocação" para a época. O naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire notou o contraste entre os senhores e os escravos na região, e louvou o "caráter e humanismo do fazendeiro".
  • Inveja e Conflito: Essa liberalidade despertou a inveja e a cupidez de vizinhos retrógrados, resultando em uma campanha para interdição de Fogaça, alegando que ele estava dissipando o "tesouro público" e que não cuidava de seus escravos.

O tratamento dado aos escravos por Fogaça — que lhes garantia proteção e reconhecimento público, e o fato de ele lhes deixar bens por testamento, como prova de gratidão — demonstra a existência de uma faceta cultural humanista e liberal entre alguns povoadores, em choque com a mentalidade dos "senhores de escravos, arcados sob o peso de preconceitos".

4. Cultura e Legislação Portuguesa

A cultura local se desenvolveu em oposição direta à administração colonial, que era marcada pela tirania e pelo controle absoluto.

  • Governo de Proibições: O governo colonial português se manifestava, no início, quase que exclusivamente através das proibições.
  • Dificuldades Legais: A população estava "obrigada a servir Sua Majestade nas forças militares", e os "provimentos impunham multas" e a obrigação de "limpar estradas, fazer pontes, comparecer às festas".

A cultura do povoador, portanto, era uma mistura de resiliência, adaptabilidade econômica (pastoreio e tropeirismo) e, em alguns casos, uma liberalidade social que contrastava fortemente com o regime escravista e a autoridade colonial.

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