Resistência Resiliente em um contexto de Vulnerabilidade Estrutural

 

SUMÁRIO EXECUTIVO

Este estudo apresenta uma análise situacional das comunidades remanescentes de quilombos localizadas no município de Castro, na região dos Campos Gerais do Paraná, com foco no biênio 2024-2025. O estudo identifica três comunidades principais — Serra do Apon, Limitão e Mamãs — e examina suas trajetórias históricas de resistência, seus atuais desafios territoriais frente ao agronegócio local e a morosidade dos processos jurídicos de regularização fundiária junto ao INCRA. O período atual é marcado por uma retomada da pauta quilombola em nível federal, contrastada com a persistência de gargalos burocráticos e pressões fundiárias locais. O estudo utiliza como base demográfica os dados recém-consolidados do Censo IBGE 2022 e analisa o cenário pós-pandêmico de acesso a políticas públicas.


1. INTRODUÇÃO

O município de Castro, um dos núcleos históricos mais antigos do Paraná e polo do moderno agronegócio, abriga em seu território uma história paralela de resistência negra. As comunidades quilombolas de Castro são testemunhas vivas do passado escravocrata da região dos Campos Gerais, intrinsecamente ligado ao ciclo do tropeirismo e às grandes fazendas de gado e lavoura.

Este estudo tem como objetivo fornecer um diagnóstico "exaustivo e situacional" das dinâmicas que envolvem essas comunidades entre 2024 e 2025. O termo "situacional" enfatiza o momento presente, marcado pela implementação de novas políticas públicas federais e pela pressão contínua sobre os territórios tradicionais não titulados.

Metodologia: A análise baseia-se na revisão de literatura acadêmica e técnica, dados oficiais (IBGE, INCRA, Fundação Palmares), relatórios de organizações de direitos humanos (como Terra de Direitos e CONAQ) e acompanhamento da legislação e processos administrativos vigentes até janeiro de 2025.


2. DINÂMICAS HISTÓRICAS: RAÍZES E FORMAÇÃO

A presença quilombola em Castro não é um fenômeno recente, mas estrutural à formação do território.

2.1. O Contexto do Tropeirismo e a Escravidão nos Campos Gerais

Castro formou-se no caminho das tropas. A economia da região, baseada na invernada de gado e nas grandes propriedades rurais entre os séculos XVIII e XIX, dependia fundamentalmente da mão de obra escravizada. Os quilombos na região formaram-se tanto por processos de "fuga e isolamento" em áreas de difícil acesso (serras, matas ciliares) quanto por "heranças de terras" deixadas por antigos senhores a seus escravizados ou filhos destes, gerando núcleos familiares negros que permaneceram no local após a abolição.

2.2. As Comunidades Identificadas

Em Castro, destacam-se historicamente três núcleos principais, com diferentes graus de reconhecimento formal:

  1. Comunidade Serra do Apon: A mais populosa e organizada politicamente. Localizada em área de relevo acidentado (o que historicamente facilitou a resistência), sua origem remonta a famílias negras que ocuparam a área há gerações. É a referência na luta quilombola no município.

  2. Comunidade do Limitão: Comunidade rural com histórico similar de ocupação tradicional, enfrentando desafios de manutenção do território e identidade.

  3. Comunidade de Mamãs: Menor núcleo, muitas vezes com dinâmicas familiares interligadas às outras comunidades, também buscando reconhecimento de sua ancestralidade e direitos territoriais.

Dinâmica Histórica Recente (2024-2025): O período atual é marcado por um forte movimento de "resgate da memória" e autoafirmação identitária, impulsionado pelas gerações mais jovens que acessam a universidade e retornam às comunidades com novas ferramentas políticas.


3. SITUAÇÃO DEMOGRÁFICA (O EFEITO CENSO 2022)

O biênio 2024-2025 é o primeiro momento em que políticas públicas podem ser desenhadas com base em dados censitários reais sobre a população quilombola, e não apenas estimativas.

  • Impacto do Censo 2022: O Censo revelou uma população quilombola no Paraná significativamente maior do que a estimada anteriormente, dando visibilidade estatística a esses grupos.

  • Situação em Castro: Os dados do Censo (divulgados integralmente em 2023/2024) mapearam os residentes nos territórios autodeclarados. Embora os números exatos flutuem conforme a metodologia de contagem (residentes em áreas delimitadas versus autodeclarados fora delas), a Serra do Apon concentra a maior parte das famílias.

  • Perfil Atual: A demografia atual mostra o desafio da permanência da juventude no território. A falta de oportunidades econômicas locais (além da agricultura de subsistência) e a pressão do agronegócio levam muitos jovens a migrar para a área urbana de Castro ou Ponta Grossa, gerando um envelhecimento da população residente no território tradicional.


4. DINÂMICAS JURÍDICAS E O PROCESSO DE REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA (2024-2025)

Esta é a dimensão mais crítica. A segurança jurídica do território é a base para a sobrevivência física e cultural das comunidades. O Artigo 68 do ADCT da Constituição de 1988 garante o direito à propriedade definitiva, mas a efetivação é lenta.

4.1. O Status do Processo no INCRA (Situação em Jan/2025)

O processo de regularização fundiária segue o rito do Decreto Federal nº 4887/2003, sob responsabilidade do INCRA.

  1. Certificação (Fundação Cultural Palmares): As comunidades principais de Castro, notadamente a Serra do Apon, já possuem a Certidão de Autodefinição emitida pela Fundação Palmares. Este é o primeiro passo, já superado há anos.

  2. RTID (Relatório Técnico de Identificação e Delimitação): Este é o maior gargalo histórico. A Serra do Apon está há anos com o processo de elaboração/conclusão do RTID em andamento. O RTID é um estudo complexo (antropológico, histórico, cartográfico, agronômico) que define os limites do território a ser titulado.

    • Cenário 2024-2025: Apesar da mudança de governo federal em 2023 e a promessa de aceleração dos processos, o INCRA/PR ainda enfrenta déficit de pessoal e recursos técnicos. Em 2024, houve avanços pontuais na tramitação interna, mas a publicação do RTID finalizado e aprovado da Serra do Apon ainda é aguardada. As comunidades de Limitão e Mamãs estão em estágios ainda mais incipientes.

  3. Portaria de Reconhecimento e Titulação: Nenhuma comunidade de Castro possui, até janeiro de 2025, o título definitivo de suas terras.

4.2. O Contexto Jurídico-Político Atual

O período 2024-2025 é caracterizado por um ambiente jurídico federal mais favorável, com a retomada de políticas de igualdade racial e a reestruturação do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e do INCRA. No entanto, a "máquina" da regularização ainda opera lentamente. Há uma tensão constante entre a legislação protetiva e as contestações judiciais movidas por proprietários rurais vizinhos que questionam os limites territoriais reivindicados.


5. DINÂMICAS TERRITORIAIS: CONFLITOS E USO DO SOLO

O território quilombola em Castro não existe no vácuo; ele está inserido em uma das regiões agrícolas mais produtivas e valorizadas do Brasil.

5.1. O Cerco do Agronegócio

Castro é líder nacional na produção de leite e grãos (soja, milho, feijão), utilizando alta tecnologia e extensas áreas de terra. As comunidades quilombolas são, frequentemente, "ilhas" de agricultura familiar cercadas por esse mar de monoculturas.

  • Conflito de Limites: A principal tensão territorial em 2024-2025 não é necessariamente a violência física direta, mas a pressão sobre as cercas. Fazendeiros vizinhos muitas vezes avançam sobre áreas de uso tradicional das comunidades que ainda não estão juridicamente demarcadas.

  • Contaminação Ambiental: A proximidade com lavouras intensivas expõe as comunidades à deriva de agrotóxicos. Há relatos recorrentes de problemas de saúde e contaminação de pequenas roças de subsistência e fontes de água.

  • Especulação Imobiliária Rural: O alto valor da terra em Castro torna a área quilombola alvo de cobiça, dificultando a permanência e aumentando a pressão para a venda de "direitos de posse" por parte de membros da comunidade em dificuldades financeiras.

5.2. Uso Tradicional do Solo

Nas áreas que controlam, as comunidades mantêm práticas de agricultura familiar, roças de subsistência e pequena criação de animais. A relação com a terra não é apenas econômica, mas identitária e de ancestralidade. A luta territorial é também uma luta pela manutenção de um modo de vida distinto da lógica do agronegócio industrial.


6. SITUAÇÃO SOCIOECONÔMICA E POLÍTICAS PÚBLICAS (2024-2025)

A ausência da titulação da terra impacta diretamente o acesso a outras políticas públicas.

  • Infraestrutura Básica: Em 2024-2025, as comunidades ainda enfrentam desafios no acesso a saneamento básico adequado e, em alguns pontos, à qualidade da energia elétrica e sinal de internet/telefonia, essenciais no mundo pós-pandêmico.

  • Educação: O acesso à escola é garantido, mas o transporte escolar rural ainda apresenta precariedades. O desafio atual é a implementação efetiva das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola nas escolas que atendem essas comunidades, garantindo que a história local e a cultura afro-brasileira sejam ensinadas de forma qualificada.

  • Saúde: A atenção básica é realizada pelo sistema municipal de Castro. A principal demanda em 2024-2025 é por um atendimento de saúde que considere as especificidades da população negra (Política Nacional de Saúde Integral da População Negra), incluindo a atenção a doenças prevalentes e o combate ao racismo institucional no atendimento.

  • Acesso a Crédito Rural: Sem o título da terra, os agricultores quilombolas têm extrema dificuldade em acessar linhas de crédito robustas (como o PRONAF) para investir na produção, ficando limitados a programas de fomento mais básicos.


7. CONCLUSÃO E PERSPECTIVAS

O estudo situacional das comunidades quilombolas de Castro no biênio 2024-2025 revela um cenário de resistência resiliente em um contexto de vulnerabilidade estrutural.

Historicamente, essas comunidades sobreviveram às margens do sistema escravocrata e, posteriormente, do capitalismo agrário. Atualmente, a dinâmica principal é a espera jurídica. A comunidade da Serra do Apon, e em menor grau as demais, estão "na fila" do Estado brasileiro para efetivar um direito constitucional garantido há 36 anos.

Para 2025 em diante, as perspectivas dependem fundamentalmente de dois fatores:

  1. A capacidade do governo federal (INCRA/MDA) de destravar os RTIDs e publicar as Portarias de Reconhecimento, superando a burocracia e resistindo às pressões políticas do agronegócio.

  2. A capacidade de organização e articulação política das próprias comunidades de Castro, junto a órgãos como a CONAQ e a Defensoria Pública, para exigir a celeridade dos processos e a garantia de seus direitos territoriais frente ao avanço da fronteira agrícola local.

O território quilombola em Castro não é apenas um pedaço de terra; é um espaço de memória e uma alternativa de desenvolvimento socioambiental em uma região dominada pela monocultura. A garantia desse território é o pré-requisito para a cidadania plena dessas populações.

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