A situação política no Paraná (1964-1985)

 A situação política no Paraná durante a Ditadura Militar (1964-1985) foi marcada por uma transição inicialmente fluida para o novo regime, seguida por um longo período de controle centralizado por meio de governadores nomeados ("biônicos") e tensões sociais latentes no interior do estado.

Aqui estão os pontos fundamentais para contextualizar esse período:

A Adesão ao Golpe e o Papel de Ney Braga

Diferente de outros estados onde houve resistência imediata, no Paraná a transição do governo civil para o militar foi considerada tranquila pelas forças armadas. O então governador Ney Braga, embora não figurasse oficialmente na lista dos principais conspiradores nacionais, teve participação ativa na deflagração do golpe e apoiou as "Marchas da Família com Deus pela Liberdade" em Curitiba. Braga foi uma liderança central que conseguiu cooptar setores do PTB paranaense para apoiar o novo regime, quebrando hegemonias partidárias que vinham desde 1946.

A Era dos "Governadores Biônicos"

A política paranaense foi gerida por figuras escolhidas diretamente pelo governo federal ou pela Assembleia Legislativa sob controle militar, conhecidas como "biônicos". Esse ciclo incluiu nomes como:

  • Haroldo Leon Peres: Nomeado em 1971, mas afastado poucos meses depois sob acusações de corrupção, o que gerou crises de imagem para o regime no estado.

  • Pedro Viriato Parigot de Souza e Emílio Gomes: Gestões marcadas pela continuidade administrativa e alinhamento técnico ao projeto nacional.

  • Jayme Canet Júnior (1975-1979): Sua gestão coincidiu com o auge da repressão e o início da abertura lenta e gradual de Geisel.

Vigilância e Repressão no Interior

O controle não se limitava à capital. A 5ª Região Militar, sediada em Curitiba, exercia vigilância sobre todo o estado. No interior, a repressão focou em dois eixos principais:

  1. Conflitos Agrários: O Sudoeste e o Oeste do Paraná eram zonas de alta tensão devido a disputas de terras. Grupos como o "Grupo dos Onze" (ligados ao brizolismo) foram alvos constantes de prisões e interrogatórios.

  2. Movimento Estudantil: Cidades como Ponta Grossa sentiram o peso da "Operação Pente Fino" em 1968, que visava desarticular a insurgência estudantil e docente em instituições de ensino.

A Ascensão da Oposição (MDB)

A partir de meados da década de 1970, o bipartidarismo imposto pelo regime começou a sofrer abalos. O MDB (Movimento Democrático Brasileiro) cresceu significativamente nas eleições de 1974 e 1978 no Paraná, refletindo o desgaste econômico e moral do governo. Esse avanço forçou o regime a lançar mão de casuísmos como o "Pacote de Abril" de 1977, que criou senadores biônicos para garantir a maioria governista. No final da década, nomes como Álvaro Dias e José Richa emergiram como novas lideranças liberais que capitalizariam o desejo de mudança no estado.


Oney Borba


Oney Borba atuava como uma força de resistência intelectual que tensionava justamente a "estabilidade" política construída pelas elites paranaenses e pelos governadores biônicos. Enquanto o governo estadual buscava projetar uma imagem de progresso técnico e alinhamento nacional, Borba usava sua verve a partir de Castro para expor as rachaduras dessa narrativa.

Aqui está como a figura de Oney Borba se encaixa nesse cenário político:

O Contraponto ao "Civismo Ufanista" de Ney Braga

Enquanto Ney Braga consolidava a adesão do Paraná ao golpe com o apoio das classes médias e setores conservadores , Oney Borba representava o intelectual que trazia na bagagem a cicatriz da repressão (tendo sido preso ainda em 1936 por convicções políticas). Borba não aceitava o discurso de "ordem e progresso" do regime; ele utilizava a crônica para injetar críticas que os grandes jornais de Curitiba, muitas vezes alinhados ou censurados, não podiam publicar.

Resistência em "Praças Vigiadas"

Apesar da vigilância rigorosa da 5ª Região Militar sobre o interior paranaense , Borba encontrou nos jornais de Castro — como o Jornal do Iapó e, principalmente, O Bravo — espaços para uma resistência sofisticada .

  • O Bravo (1974-1976): Este jornal tornou-se um polo de resistência intelectual durante o governo de Jayme Canet Júnior, um período de repressão intensa, mas também de início da abertura lenta.

  • Subterfúgio: Borba utilizava a "mímica e a dissimulação" em sua escrita. Ele não fazia apenas a oposição direta e partidária (como a do MDB), mas uma crítica sistêmica à hipocrisia das elites locais que davam sustentação política aos governadores nomeados pelo regime.

Desconstrução da "História Oficial" como Ato Político

O projeto de "integração nacional" dos militares buscava homogeneizar a identidade brasileira e exaltar figuras históricas de comando. Borba golpeou essa estratégia no coração ao publicar Telêmaco Mandava Matar (1987, concebido durante o regime). Ao expor a violência e o autoritarismo de seu próprio antepassado, o Coronel Telêmaco Borba, ele atacava indiretamente o "coronelismo moderno" sancionado pelo poder militar . Para Oney, mostrar que a história do Paraná era forjada em sangue e escravidão era uma forma de desmascarar os "salvadores da pátria" do presente.

A Crítica à Identidade Referência

No ocaso da ditadura, enquanto novos líderes como José Richa e Álvaro Dias começavam a dominar o campo político paranaense com uma renovação liberal , Oney Borba publicou Preconceitos e Violência (1984). Nesta obra, ele teorizou que o regime militar havia apenas exacerbado uma "identidade referência" excludente (homem, branco, cristão), relegando as demais realidades do interior à marginalidade social e política .

Em suma, Oney Borba foi o intelectual que provou que, mesmo em um estado onde o golpe foi "tranquilo" e a política era gerida por biônicos, a inteligência crítica no interior mantinha acesa uma trincheira de liberdade por meio da escrita visceral e do rigor histórico.


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